Caio Blat é a favor da legalização

Caio Blat (Reprodução / Internet)
Caio Blat (Reprodução / Internet)

Publicado na coluna Mônica Bergamo (Folha de S.Paulo) – 20/04/2014

Com mais de duas horas de atraso, Caio Blat, 33, chega ao set de filmagem de “Califórnia”, primeiro longa-metragem da cineasta Marina Person. Após cumprimentar quase todos os integrantes da equipe com abraços, ele pede desculpas. “Avisei o pessoal da novela [‘Joia Rara’] que tinha esse compromisso. Quando chegou a hora de sair [do estúdio], a cena que eu fazia estava na metade.”

Pensou em largar tudo no meio. “Mas resolvi respirar.”

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Nos últimos meses, Caio Blat vive numa “roleta-russa”, como diz. Até o começo do mês, gravava a novela “Joia Rara” nos estúdios da Globo, no Rio -o último capítulo foi ao ar no dia 4. Aos domingos, viaja de avião a SP para participar do filme de Person, em que interpreta tio Carlos, que contraiu HIV na década de 1980. Nesse meio-tempo, ajudou a divulgar os filmes “Entre Nós” e “Alemão”, que estrela. E já recebeu capítulos da próxima novela das nove da Globo, “Falso Brilhante”, para a qual foi chamado e que estreia em julho. “Ainda não consegui parar pra ler os capítulos.”

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Já franzino, Blat emagreceu 5 kg para viver o personagem do longa de Person. “No primeiro dia de filmagem, tive ‘teto preto’ [ficou tonto e não enxergava direito]. Estava fraco. Levantei da cama rápido e caí. Não conseguia avisar o motorista que foi me buscar que estava passando mal. Senti a impotência diante da doença. Foi um momento de fragilidade total”, diz à repórter Marcela Paes.

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“Eu procuro equilibrar mais e não ficar tão ferrado dessa maneira”, diz. A correria “talvez seja um reflexo do que a gente está vivendo”. E explica: “Tem muita coisa acontecendo. As séries de TV estão bombando. A própria Globo está produzindo pra caralho. Toda a direção está sendo trocada. As coisas estão mudando. A emissora está mais aberta para receber projetos diferentes. Meus amigos mais próximos estão sendo promovidos. A [diretora] Amora [Mautner], o [diretor] José Luiz Villamarim. É uma nova geração e um momento de a gente assumir mais responsabilidades e funções”.

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Amora Mautner “encampou” um de seus projetos, uma microssérie adaptada de um romance do escritor russo Fiódor Dostoiévski. “Vai rolar durante a novela.”

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“Grana é um dos principais motivos para eu fazer TV aberta”, diz Caio Blat. “Também tem o fato de ser uma coisa nacional, com uma penetração enorme. É uma vitrine que me permite fazer outros projetos menores paralelamente. Assim eu vou equilibrando minha carreira.” Nos últimos anos, afirma o ator, “isso vem dando certo”.

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“Mas a televisão agora tem se tornado uma plataforma muito interessante. Eu acho mesmo que as TVs abertas vão se transformar radicalmente. Nos próximos anos, elas vão virar um portal de conteúdo e a pessoa vai sentar e escolher o que quer ver, sem se submeter ao horário da transmissão. O espectador será dono da programação, pelo iPad, no carro”, prevê.

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Considera as redes internacionais um modelo. “A Globo tem a Globo Filmes, mas isso está longe de ser suficiente. Eles têm uma plataforma muito grande, deviam investir mais em cinema e teatro, como fazem a BBC de Londres e alguns meios de comunicação franceses.”

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Na novela “Falso Brilhante”, ele viverá um par romântico com a própria mulher, a atriz Maria Ribeiro. “Vai ser o auge da exposição pública da nossa relação. A Maria vai ter uma experiência muito maluca. Vai contracenar comigo, com o Paulo Betti [ex-marido da atriz] e conviver com o namorado da adolescência, que é um dos diretores.”

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Preservar a intimidade da família é uma das preocupações do casal. Convites para propagandas envolvendo João, 11, filho de Maria com Paulo Betti, e Bento, 4, são vetados. “Já convidaram o João até para fazer novela. Fico dividido, porque fui um ator mirim e amava. Mas vejo muitas crianças exaustas em sets, que estão lá para satisfazer um desejo dos pais”, diz.

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Enquanto é maquiado em um dos quartos na casa no Alto de Pinheiros que serve de locação do filme de Person, ele comenta que a agenda apertada o fez perder a festa de aniversário do enteado. “Às vezes tenho que me corrigir quando me perguntam quantos filhos eu tenho. Porque o João é como se fosse meu filho”, diz ele, que também é pai de Antônio, 10, com a cantora Ana Ariel. “Com filhos você revive toda a sua infância, mas com consciência. É até melhor do que ser criança.”

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Na família Ribeiro-Blat não existem tabus, e conversas sobre drogas acontecem “o tempo inteiro”. “Já usei maconha, sim. E não acho nada de mais. É igual a beber um copo de cerveja e fumar um cigarro.” É a favor da liberação, como ocorreu no Uruguai. “O que acontece aqui é uma repressão burra.”

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Ele trocou um apartamento na Barra da Tijuca pelo Vidigal, em 2001, para dirigir a peça “Êxtase”, encenada na favela. “Fui embora porque não conseguia subir em dia de tiroteio. Parece um passado remoto, mas não é.” Ainda professor de teatro da ONG Nós do Morro, na mesma comunidade carioca, ele aprova as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). “A pessoa poder voltar pra casa em paz e saber que não vai ter barreira do tráfico é o mínimo.”

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Votou em Dilma Rousseff em um dos turnos da eleição de 2010. “Sempre gostei do perfil mais executivo, mas ultimamente nem boa gestora ela tem se provado”, afirma. “O PT está no poder há 12 anos e já mostra sinais de esgotamento das suas políticas. Talvez seja uma hora de renovar um pouco.”

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Caio Blat quer também experimentar o outro lado da tela: ele pretende dirigir um filme no cinema. “De uns anos pra cá, eu não consigo entrar no set e só fazer o meu trabalho. Teve até um diretor que me disse: ‘Quando a novela for sua, você pode opinar. Por enquanto, siga a marca’.”

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O enredo escolhido para a estreia como diretor é uma adaptação do livro “Juliano Pavollini”, do escritor catarinense Cristovão Tezza. Já convidou Johannis Brito, 13, um dos alunos na ONG Nós do Morro, para ser o protagonista. “É a história de um garoto da roça que foge e vai morar no sótão de um bordel. O papel da cafetina chiquérrima que o cria será da Cássia Kis, que é maravilhosa.”

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Com agenda e casa cheias, Blat e Maria Ribeiro planejam ainda ter mais um filho. “Talvez depois dessa maluquice da novela. Vamos dar uma sumida.” Quem sabe passem um período sabático em Portugal ou em Paris.

Leia a reportagem original clicando aqui

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