Editorial #11: Glória não surtou

Apresentadora do Globo Repórter polemizou ao dar uma boa tragada em um cachimbo cheio de maconha, na Jamaica. E, até o final da reportagem, não apresentou nenhum quadro esquizofrênico. Na verdade, parecia até mais feliz.

Por Dório Ewbank Victor*

Foi um momento maneiro e surpreendente para a cena canábica do Brasil. O Globo Repórter da última sexta-feira mostrou a apresentadora Glória Maria fumando maconha durante reportagem sobre a Jamaica. De uma maneira quase antropológica, ela segurou um enorme cachimbo, dado a ela por um líder rastafári (da Bobo Ashanti), deu uma boa tragada, e ficou soltando fumaça enquanto balançava as mãos para afastá-la de si. No off gravado, disse apenas que ficou completamente tonta. E ponto.

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Na verdade, “ponto” somente neste bloco do programa. Pois uma frase afirmativa perdeu sua exclamação no imaginário dos brasileiros. A frase, dita quase de forma peristáltica por todos os proibicionistas: que a cannabis causa surto psicótico. Ou que provoca depressão e paranoia. Ou dependência. Enfim, a questão é que, quem viu o programa inteiro, pode perceber que a âncora global ficou até mais feliz no final da reportagem, adotando inclusive um novo penteado – “Resolvi aderir ao estilo jamaicano. Tô feliz, viu?”, disse ela ao término da matéria.

A naturalidade como tudo aconteceu, pegando todas as famílias desprevenidas, sentadas em seus sofás naquela noite de sexta-feira, provocou um furor positivo para a causa da legalização da erva no país. Imediatamente, posts e memes invadiram as redes sociais, bem como trechos do vídeo mostrando somente esta cena histórica.

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Acredito que, entre milhares de brincadeiras que visualizei, ficou a imagem “de uma pessoa pública, do bem, consumindo cannabis”, sem ter nenhum dos efeitos colaterais propagandeados pelos cavaleiros medievais das bancadas conservadoras de todo o país. Glória não surtou, e sim, e sem querer, revolucionou a cena, colocando o tema maconha no horário nobre, de forma espontânea e positiva.

As cenas exibidas também podem quebrar muitos paradigmas no Brasil, principalmente na área da Justiça. Por exemplo, as imagens podem trazer lucidez para os juízes brasileiros que condenaram o líder rastafári no Brasil, Ras Geraldinho, por plantar maconha em seu templo. Uma prisão ignorante e que criou precedentes que só regrediram ainda mais a visão da cannabis no país.

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No cenário mundial, não é novidade apresentadores fumando maconha, seja ao vivo ou em reportagens. Por isso, acho que o Brasil precisava deste toque de contemporaneidade. Tomara que outras “Glórias Marias” apareçam mais em horários nobres ou nas redes sociais, seja fumando ou vaporizando, ou quem sabe até cozinhando com a erva. O problema é que não imagino nenhum nome que possa fazer isso. Se alguém tiver alguma sugestão, por favor, comente aqui para nós. Por enquanto, fico na expectativa de me surpreender novamente.

*Dório Ewbank Victor é jornalista, escritor, ativista e editor da Macô

Um comentário em “Editorial #11: Glória não surtou

  • 3 de julho de 2016 em 11:24
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    Bom Dia!
    Gostaria apenas de colocar, ou enfatizar a frase da Apresentadora e repórter: Gloria Maria que achei bastante relevante.
    Logo depois de ter dito que ficou completamente tonta, ela disse: Pra quem não esta acostumado, é preciso tempo para entender!
    Isso é relevante para mim pois, a primeira vez que fiquei chapado, meus sentidos se aguçaram, e também tive essa sensação tonteira!

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