Editorial #05: No horizonte, mais conservadores

Golpe de Estado, registrado ontem na Câmara de Deputados, fortalece grupo de parlamentares que mantém o proibicionismo no país.

* Dorio Ewbank Victor

O deputado Osmar Terra (PMDB-RS) nunca pensou que teria tanta notoriedade em menos de um mês. No final de março, ele defendeu no Senado Federal seu projeto de Lei que mantém a criminalização dos usuários não só de cannabis, mas de todas as drogas em geral. E, ontem, ele proclamou, em rede nacional e “em nome da família”, seu voto a favor do impeachment de Dilma. O voto dele, naquele momento, exemplificava a intenção de sua bancada e de seus aliados, como Eduardo Cunha, Paulo Maluf, Marco Feliciano e Clarissa Garotinho, todos ultraconservadores, proibicionistas e muito poderosos.

Sem entrar em detalhes, sabemos que o pedido de impeachment nem deveria ter acontecido. Isso porque, resumidamente, a falha administrativa cometida pela presidente Dilma não configura nenhum tipo de crime que prevê este tipo de punição. O golpe aconteceu devido à força deste grupo de políticos conservadores. E nós, ativistas pela legalização da cannabis, devemos ficar atentos a este tipo de abuso de poder.

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Isso porque, com a queda de Dilma, este grupo deverá ficar mais consolidado do que nunca, e poderá tentar burlar a Constituição mais uma vez contra a causa canábica e em nome das empresas farmacêuticas e das clínicas de recuperação de usuários. Se estes “seres medievais” conseguiram falar mais alto do que a Lei e que todos os eleitores que elegeram Dilma, eles podem se voltar ainda mais contra nós.

Por exemplo, estes políticos podem tentar, por meio de projetos emergenciais, fortalecer a Guerra às Drogas, o que, consequentemente, só aumentaria a violência urbana.

Também podem endurecer as regras para importação de medicamentos, só para continuarem recebendo o caixa dois das empresas farmacêuticas.

Lembremos o que declarou o próprio Osmar Terra nas audiências no Senado: que as drogas devem ser tratadas como uma “epidemia”, e que tinham que aniquilar com o “vírus”, coibindo e punindo cada vez mais o usuário.

Pois é, o grupo político de Terra agora está no poder. E é bem difícil acreditar que ele votou contra Dilma somente em nome da família, e não por troca de favores. Na política, nada é de graça. O problema é que, geralmente, quem paga, somos nós mesmos.

* Dorio Ewbank Victor é jornalista, escritor, ativista e editor da Macô  

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