Editorial # 08: Cemitério de pontas

Além do rastro de terror, o proibicionismo gerou uma cultura de hábitos entre os usuários de cannabis, como fumar de janela fechada, pingar desnecessariamente colírios, e guardar o que sobra dos baseados.

* Por Dorio Ewbank Victor

Quando pensamos em males do proibicionismo, ou das consequências eloquentes da Guerra às Drogas, logo vem à mente as milhares de mortes de inocentes, ou a prisão desnecessária de usuários de drogas, ou mesmo no financiamento de campanhas eleitorais por parte de traficantes das favelas, a fim de galgarem espaços dentro das administrações públicas. E não estaríamos errados ao pensarmos somente nisso. Mas, por outro lado, talvez mais “inocente”, nestas décadas que tornaram o usuário de cannabis um criminoso, também criou-se uma série de comportamentos que podemos caracterizar como uma cultura.

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O primeiro e mais famosos deles seria o uso desnecessário de colírio, somente para tirar a vermelhidão dos olhos. Isso porque esta irritação ocular é praticamente um outdoor escrito “acabei de fumar maconha”. Além de gerar insegurança no usuário no dia a dia (principalmente ao falar com o chefe ou professor), pode aumentar o tempo de desespero durante uma dura policial – que com certeza vai sacar que não está puro, e vai querer vasculhar ainda mais carro, bolsos, etc.

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Outro hábito surge no perigo e falta de acesso à cannabis no Brasil: o clássico cemitério de pontas, que são as “guimbas” dos baseados fumados. Geralmente, quando o usuário fica sem, acaba recorrendo a estas pontas, que contem um resto de maconha já carburada, que, geralmente, tem um cheio bem impregnante. Um costume que, com certeza, sumiria  o primeiro momento da legalização. Afinal, se formos comparar, não vemos tabagistas guardando guimbas para usá-las em caso de emergência – eles vão ao bar da esquina e comprar outro.

E as janelas fechadas, putz… é um hábito bizarro, mas, muitas vezes, totalmente necessário para manter a segurança do usuário. Em qualquer outro contexto, ninguém entraria em um quarto, ou em um carro, com portas e janelas fechadas, e com incensos acessos e cigarros carburando non stop – a clássica “sauna”. Um presente de grego para os pulmões de qualquer um. Mas troque o cigarro por maconha, e eis que então tudo começa a fazer um sentido, que, na verdade, não faz sentido. Fumar um deveria ser feito com janelas abertas, ou mesmo ao ar livre, sem que o usuário não corresse qualquer risco. Enquanto o proibicionismo persistir, taca-lhe saunas pelas áreas urbanas do país.

E, quando o usuário está com uma pequena quantidade de cannabis e se depara com a polícia? Eis aí um hábito bem nojento provocado pelo proibicionismo, o de colocar maconha nos testículos. É um hábito até normal entre usuários, daqueles que a gente nem pensa direito na ação –  a questão é escapar do baculejo. Mas, se parar para pensar, você não guarda nenhum outro objeto nas partes genitais. Nada. Tentem fazer uma analogia: você comeria um chocolate que estivesse guardado no pentelho dos outros? Um chiclete talvez? Mas troque por maconha, e tudo, novamente, faz aquele sentido sem sentido. É um hábito nojento que o proibicionismo fez tornar normal entre os maconheiros.

Se pararmos para analisar, todos estes comportamentos, que moldam parte da personalidade dos usuários, foram gerados pelo medo de sermos presos ou sofrermos qualquer repressão. Logo, quando for legalizado, provavelmente desaparecerão. Pelo menos, nas futuras gerações. Nas antigas, que seremos nós mesmo, talvez fique ainda algum resquício. Seremos memórias vivas de um mundo repressor. Mais do que isso: de que sempre estivemos do lado certo, o da verdade.

* Dorio Ewbank Victor é jornalista, escritor, ativista e editor da Macô. 

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