Editorial #13: Bares e farmácias contra maconha

Nos EUA, as indústrias farmacêutica e de bebidas têm financiado lobbys e fortalecido proibicionistas para endurecer as leis pró-cannabis. Por que no Brasil seria diferente?

Por Dório Ewbank Victor*

Não, não é teoria da conspiração. Na boa, não tem Mel Gibson na jogada. Mas o fato é que diversas fontes internacionais apontam para um superlobby dentro dos congressos norte-americanos para fortalecer as bancadas anti-legalização da cannabis, em busca de um possível retrocesso ou endurecimento das leis. Esta articulação é feita principalmente por indústrias farmacêuticas e de bebidas alcoólicas, setores da economia que mais sentiram no bolso os impactos positivos da legalização da cannabis nos EUA.

Daí a gente lembra que a maior drunk company do mundo é brasileira… mas vamos nos ater inicialmente a questão dos EUA.

Eu escrevi que não teria Mel Gibson, mas tem Snowdem. Foi mal, mas é sério, dentre as centenas de milhares de informações liberadas por ele no escândalo Wikileaks, existem vários e-mails do Wine & Spirits Wholesalers of America (WSWA), uma miniAmbev de lá, para todos os congressistas não aprovarem um projeto de lei que permite o uso da maconha antes, durante e depois de dirigir nos estados legalizados. Esta é uma das questões mais emblemáticas onde foi legalizada, e, se esta lei for aprovada, colocará um diferencial social significativo entre a cannabis e o álcool quanto ao uso social.

+ Editorial #11: Glória não surtou

No Arizona, um dos poucos estados que ainda não legalizou, e que presos usam uniformes rosas, o lobby tem sido bastante forte para manter o proibicionismo. segundo reportagem do The Guardian, em outubro do ano passado. A reportagem revelou uma doação de 500 mil dólares de uma grande companhia farmacêutica, a Insys Therapeutics, para um grupo proibicionista se fortalecer ante a projeto de lei que prevê a legalização neste estado.

+ Editorial #09: Maconha nos esportes

Enfim, lá fora toda hora pipoca algum escândalo envolvendo estas empresas e autoridades públicas. E seria muita inocência de nossa parte que isso não aconteça no Brasil, a terra da propina, onde literalmente o dinheiro compra qualquer coisa. Soa como uma psicoteoria, mas não, não é o Gibson quem escreve, e sim a grande imprensa que comprova isto.

Por exemplo, tivemos doações de R$ 6 milhões por parte da Ambev nas últimas eleições presidenciais (tanto para Aécio quanto para Dilma). Também financiou, em R$ 1 milhão, por meio de outra empresa (CRBS), a campanha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, pego na Operação Lava-Jato. E em R$ 500 mil na campanha do nosso deputado canarinho Romário, também por meio de uma subsidiária.

Na área farmacêutica, o lobby era tão sinistro que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu proibir doações de campanha deste setor. Por exemplo, nas eleições de 2010, a Interfarma investiu R$ 1,8 milhão em doações nominais para dois candidatos ao Senado e 18 à Câmara. Entre eles o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) e os deputados Saraiva Felipe (PMDB-MG), Osmar Terra (PMDB-RS), Renato Molling (PP-RS), Bruno Araújo (PSDB-PE), Onyx Lorenzoni (DEM-RS), Nelson Marquezelli (PTB-SP) e Darcísio Perondi (PMDB-RS).

Seria inocência pensar que estas doações não têm interesses escusos. Bem como seria inocência pensar que toda esta liberação da cannabis medicinal no país não têm o dedo de lobistas de grandes empresas internacionais de hemp oil.

O problema é que, neste tiroteio de lobistas, quem se ferra são os usuários, medicinais ou não. São a ponta fraca de toda esta hierarquia. São a maioria que lota os presídios brasileiros, onde atualmente são decapitados em guerras de facções dentro das penitenciárias.

É uma consequência muito drástica pela dominação de um mercado onde, se repartir, todo mundo sai lucrando. Maconha faz menos mal que álcool, e pode gerar muito se for legalizada, e nem por isso as pessoas vão deixar de beber. Também pode ser usada como medicamento, e pode ser tanto produzido em casa, quanto vendido em farmácias – o importante é a liberdade para ambos os processos.

Importante ficarmos atentos às movimentações das bancadas proibicionistas, principalmente os parlamentares que tiveram suas campanhas financiadas por estes setores da economia. Com certeza eles não vão soltar o osso assim tão fácil. Mas basta lembrar das vítimas desta guerra para ganharmos fôlego na luta. Luta real, sem conspirações. Vou ficar te devendo essa Gibson.

gibson

 

* Dório Ewbank Victor é escritor, jornalista, ativista, e editor da Macô. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *