Editorial #14: E quem legalizou não é maconheiro

Alexandre Meirelles não sabia nada sobre cannabis antes de descobrir que a erva poderia ser o remédio vital para seu filho. E acabou conseguindo o que todo usuário gostaria de ter: licença para plantar sua própria erva.

Por Dório Ewbank Victor*

O sol estava rachando o coco na região do Jacaré, no Rio de Janeiro, quando subi os quatro andares daquele pequeno edifício para chegar à casa de Alexandre Meirelles, parceiro de Abracannabis e um dos primeiros conquistadores do Habeas Corpus preventivo no país. Com este documento ele pode continuar plantando cannabis para fazer óleo para seu filho Gabriel, de 14 anos, que sofre de epilepsia severa.

Alexandre me recebeu com pão de queijo e suco de uva, além da calorosa recepção da sua família, incluindo o jovem. Ele é grande, tem um olhar forte, e é torcedor do Botafogo. Então, conversamos sobre futebol, e logo percebi que ele é inteligente. Até porque, neste mundo de inverdades sobre a cannabis, também optou em enfrentar o preconceito e usar o medicamento que mais lhe faz bem. Que é o hemp oil com altos teores de canabidiol (CBD).

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Mas confesso que me surpreendi ao ouvir apenas um “tudo indo, meu amigo”, ao perguntar como estavam as coisas. Esperava escutar um “porra, conseguimos!”, mas não havia muita empolgação. Não havia também desanimo, mas o cheiro de vitória passou longe, mesmo com o troféu nas mãos.

Logo depois acho que compreendi a questão.

Alexandre nunca fumou maconha, e não é especialista no assunto – está aprendendo aos poucos, com suporte da Abracannabis. O HC mudou apenas parte da sua vida, bastante transtornada nos últimos meses. Ele perdeu o emprego onde trabalhava há 20 anos como professor, forçando a virar taxista. A esposa também foi demitida, nesta recessão que tem atingido todo o nosso país sob golpe de estado. O pai, que mora com ele, está com câncer. E seu filho tem tido fortes crises – ele ainda não colheu para fazer o óleo.

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Apesar de o Habeas Corpus ser uma grande vitória para a causa canábica, não mudara muito a vida dele. Isso porque Alexandre é o clássico exemplo de “pai guerreiro”. E, com ou sem permissão judicial, ele continuaria plantando para oferecer o melhor tratamento para seu filho, e, agora, também para seu pai. É um exemplo de cidadão, com uma força moral que tornaria nulo qualquer argumento judicial contra ele.

Chegamos à “big Picture” da questão: este Habeas Corpus, na verdade, serve tanto para os pacientes quanto também para a Justiça, para evitar que seja obrigada a adotar uma postura medieval no caso destes pacientes serem processados. Ou seja, o HC “protege” a Justiça de cumprir a defasada Lei de Drogas, de 2006. Incoerentemente, a protege de não cometer injustiças.

Estes habeas corpus preventivos, conquistados por Alexandre e também pela Cidinha e Margareth (mães que também conseguiram este recurso), são apenas o ponto inicial de um longo processo de legalização e descriminalização da cannabis no país. É necessário que mais pacientes se espelhem nestas iniciativas para solidificarmos mais esta questão na sociedade.

Alexandre nem fuma um, mas legalizou. Porque não se acomodou. Se cada usuário saísse um pouco do seu quadrado e fizesse a sua parte, como ele fez, eu estaria fumando um agora em um coffee shop qualquer nas ruas do Rio.  Enquanto isso, só me resta torcer pela paz. Se possível, ao lado de pessoas como Alexandre.

* Dório Ewbank Victor é escritor, jornalista, ativista e editor da Macô. 

Um comentário em “Editorial #14: E quem legalizou não é maconheiro

  • 24 de janeiro de 2017 em 13:45
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    Esta é à força da parceria das associações Abracannabis Rio e São Paulo com nossa amiga Cidinha Carvalho. Um trabalho de todos com muito empenho. Lembrando a todos temos sempre que ter apoio e orientações médicos especialistas no assunto, pesquisadores, laboratórios acadêmicos de pesquisa para avaliar as propriedades do óleo, farmacêutico, Psiquiatra, porque depende de cada origem da planta que existe uma grande variedade delas ( Planta) é com isso os canabinoides pode ter elevações no CDB e também no THC. Isto é um ponto principal do tratamento de todas as patologias.

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