Editorial #15: Cidreira medicinal

Sempre que ouço de um paciente que a “erva é meu remédio”, lembro da minha avó, que falava exatamente a mesma coisa – só que se referia ao seu pé de erva-cidreira.

Por Dório Ewbank Victor*

Vovó Cecília era filha de um alemão com uma holandesa. Nasceu bem no começo do século passado. Das descendências, era óbvio que caminhou para o lado holandês. Não, não pela maconha, e sim pelos hábitos. Sempre usava vestidos floridos, costurados por ela mesma, e fazia um coque impecável no cabelo antes mesmo de ir à cozinha preparar o café da manhã. Apesar do old dutch style, morou em uma colônia alemã até os 15 anos, onde também foi alfabetizada e educada neste idioma.

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É engraçado falar da avó em um site sobre maconha. Principalmente Dona Cecília, que não bebia, não fumava, e, reza lenda da família, nunca pronunciou um palavrão. Morei com ela dos 6 aos 14 anos, e tive o privilégio de, além de aprender um pouco de alemão (que já esqueci), conhecer a simplicidade, ou melhor, a ver a felicidade na simplicidade da vida.

Entre estes hábitos simples estava o de tomar um chá todas as noites, um pouco depois do jantar. E, geralmente, era de erva-cidreira, de um pé que ficava num corredor externo da casa.

Os galhos da planta secavam atrás da geladeira. Todas as noites, Dona Cecília ia lá, preparava um chá, geralmente para toda família, e, logo após tomar, acabava dormindo na sala antes das novelas acabarem. A cidreira lhe dava um baita sono. Se não tomava, ficava com um mau-humor tímido, mesmo conseguindo assistir inteiramente o capítulo.

Lembro bem do pé de erva-cidreira. Era grande, e, quando passávamos por ele, podíamos sentir aquele perfume doce e gostoso.

Dona Cecília, em determinada ocasião da vida, ganhou uma nora médica. Que insistia para ela fazer um check up, termo que, na época, era um neologismo incompreensível, mas, ao traduzi-lo, se transformava em inexecutável. Não gostava de médicos. E sempre que o assunto vinha à tona, ela olhava para o pé de erva cidreira e dizia sorrindo: “Olha meu remédio ali. A erva é meu remédio”.

Vovó morreu aos 81 anos. Fiquei imaginando eu, atualmente, morando com ela (com mais de 100 anos), naquela mesma casa. Se tivesse, naquele corredor, ao lado do pé de cidreira, uma hindu kush, com certeza ela nada falaria. Olharia para a planta também como um remédio. Porque os olhos dela não eram contaminados com a carga de preconceitos despejada diariamente na sociedade.

Os olhos de Dona Cecília veriam o que todos deveríamos ver: aquilo seria apenas uma planta. Mais uma erva no seu quintal. Neste exemplo, surge um novo desafio: como despir os olhos, das pessoas em geral, do preconceito arraigado por décadas de proibicionismo?

Afinal, acho que o objetivo maior do ativismo não é fazer com que as pessoas “achem bonito aquele quadro feio”, mas, sim, que enxerguem a beleza deste novo cenário que surge na sociedade. De pacientes se curando com canabinoides. De jovens cultivando para não se submeter a violência urbana provocada pelo tráfico. De não ter mais mães chorando por filhos perdidos em uma guerra perdida. Esta é a beleza invisível da legalização, que precisa começar a ser vista.

Me despir dos preconceitos. Tudo bem, não foi com estas palavras que Dona Cecília me ensinou, mas eu aprendi isso com ela. Fica o exemplo. A propósito, te amo vovó, onde quer que esteja.

* Dório Ewbank Victor é jornalista, escritor, ativista e editor da Macô.

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