Editorial #16: Uso social empacado

Enquanto a cannabis medicinal tem ganhado jardas no campo de batalha dos proibicionistas, os usuários sociais ainda estão à mercê de leis imprecisas e catastróficas.

Por Dorio Ewbank Victor*

Tem gente gabaritada que garante que todo usuário de cannabis faz uso da erva por questões medicinais. A defesa desta tese é que, aqueles que não precisam dela como medicamento, não continuam a usá-la com frequência após a primeira experiência com canabinoides. Outros, ao contrário, continuam a usá-la continuamente após fumar um pela primeira vez, geralmente, por se sentirem bem com isso.

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Enquanto este entendimento não for traduzido em leis para a nossa Constituição, os usuários da erva ainda serão divididos entre medicinais e sociais. Medicinal, à priori, só para quem conseguir comprovar uma doença com prescrições e laudos médicos que possa ser tratada com cannabis. O resto é o chamado “maconheiro”, ou “aquele que fuma só para ficar doidão”.

Temos que registrar que nos últimos anos a maconha medicinal tem ganhado jardas no campo de batalha dos proibicionistas. A decisão mais recente foi da Anvisa, que reconheceu a cannabis como uma planta com fins terapêuticos. A Justiça também já concedeu permissão para vários pacientes cultivarem maconha para produzirem seus próprios óleos. Também já podemos importar medicamentos tanto com CBD quanto THC.

No entanto, estes avanços, conquistados pelo ativismo e também pela iniciativa privada, só podem ser desfrutados caso o usuário tenha uma receita nas mãos. Se não, este ainda estará à mercê de leis imprecisas e catastróficas que marcam o proibicionismo no Brasil.

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Isso porque a classificação de usuário para traficante pode depender do bom humor de quem analisa o processo. Temos casos tanto de growers detidos com várias plantas e que foram considerados usuários, como também de usuários presos como traficantes por portarem apenas poucas gramas de erva.

Esta realidade é fruto de uma legislação imprecisa, que condena principalmente a ponta fraca, que é o usuário classe média-baixa, aquele que tem que ir à boca de fumo para comprar maconha a preço de mercado, pois não tem condições de bancar os altos preços do delivery (que chega a ser cinco vezes mais caro que na “bica”).

E, se analisarmos, é o uso social o principal fator polêmico da legalização. É o que fomenta, fomentou, e fomentará, os tráficos nas comunidades carentes. A maconha, mesmo sendo menos nociva que o álcool ou tabaco, vendidos livremente nos comércios do país, ainda só é comercializada sob fuzis dos “soldados” e arregos pagos para as autoridades.

Agradeço a Jah pelos avanços na área medicinal no país, afinal, todos os pacientes têm direito à saúde e a escolher a melhor forma de tratamento. Mas o uso social da cannabis precisa ser a bola da vez no país. Principalmente, o autocultivo para uso próprio, que reduziria bastante os impactos do proibicionismo na sociedade.

Precisamos falar mais do “maconheiro”, daquele que fuma um com os amigos para relaxar no final do dia, ou para ter um “insight” no trabalho, ou só para ficar chapado mesmo. Why not? Com responsabilidade, poderíamos ter direito a tudo. Principalmente, de sermos felizes do jeito que escolhermos. E, para muitos, maconha é felicidade.

* Dorio Ewbank Victor é escritor, jornalista, ativista, e editor da Macô Cannabis Project.

Um comentário em “Editorial #16: Uso social empacado

  • 5 de junho de 2017 em 15:22
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    Exatamente! Eu sempre faço um exercício com os proibicionistas: 1) o álcool pode ser usado para fins medicinais? Não! Para uso recreativo? Sim! 2) o tabaco pode ser usado para fins medicinais? Não! Para uso recreativo? Sim!; 3) o CANNABIS pode ser usado para fins medicinais? SIM! Para uso recreativo? SIM!

    Então, como os dois primeiros são legalizados e o último não? Além disso, ninguém comenta a facilidade de se comprar remédio hoje em dia. Você nunca vê farmácia falir! Tem sempre uma (ou várias) em seu bairro, outras tantas 24 horas espalhadas em grandes centros. Hoje você compra delivery, sem ter receita e sem sair de casa! Quem está fiscalizando isso? Não estou dizendo sobre os remédio tarja-preta ou de uso controlado. Estou dizendo dos remédios “que não causam mal à saúde”. Alguém acredita nisso? Alguém já leu as bulas dos remédios? TODOS eles tem efeitos negativos. Mas nem por isso deixam de ser vendido no varejo e no atacado, não é?

    A maconha não é legalizada aqui, pois precisa ganhar nos bastidores da 1) indústria do entretenimento (álcool e tabaco) e 2) indústria farmacêutica. E dentro dessas duas indústrias estão nossos políticos que ganham com a proibição, já que eles estão alinhados com essas duas indústrias, além da indústria do tráfico que eles não combatem. Porque será, né?!

    Um abraço e vamos em frente!

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