Editorial #18: Maconha escolar

Duas polêmicas, envolvendo cannabis e escolas públicas, chamaram atenção neste mês de julho. Fatos, de certa forma, refletem a realidade de todo o país.

Por Dório Ewbank Victor*

Algo chamou minha atenção lendo as reportagens sobre cannabis no decorrer deste mês de julho, que foram as polêmicas envolvendo escolas públicas e maconha. E, de alguma forma, acredito que estes fatos podem refletir a forma que a cannabis ainda é discutida e interpretada pela sociedade brasileira.

No primeiro deles, a Escola Estadual de Ensino Médio Marinete de Souza Lira, no município da Serra (ES), resolveu promover uma discussão sobre a legalização da cannabis dentro da instituição. O tema foi colocado no mural das salas de aula (foto acima), onde todos os alunos escreveram sua opinião. A ideia ocorreu após a exibição do programa Profissão Repórter, sobre a atual cena medicinal e social da cannabis no Brasil. O mural foi um sucesso não só dentro da instituição, como também nas redes sociais – graças a um post de uma aluna que gerou milhares de likes e comentários.

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Vale ressaltar que a região onde fica esta escola é uma das mais violentas do país.  A repercussão foi positiva. Claro que teve muitos alunos que opinaram contra, meio até que previsto, dado o fato da cultura proibicionista ser antiga. Mas não imune as verdades, muitas delas ditas e também escritas em posts no mural daquela escola.

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Olha, que ideia maneira! Eu curti também o post da aluna, da escola, e da reportagem quando li. Para mim, mostra que a vanguarda da legalização brota de regiões não necessariamente cosmopolitas. A partir do momento que a informação é disseminada, neste caso específico pelo Profissão Repórter, não tem algarítmico que precise onde e quando novas iniciativas surgirão. E valoriza a informação, e também o esforço de jogá-la e atualizá-la nas redes (a Macô sabe bem disso).

O segundo fato envolve um professor ativista, que foi eleito com diretor de uma escola em Belford Roxo, na Baixada Fluminense (RJ). Mas, se depender do deputado Flávio Bolsonaro, não por muito tempo. Isso porque o parlamentar requereu ao Ministério Público do Rio e à Secretaria estadual de Educação o afastamento do professor por este ter uma tatuagem de uma folha de cannabis no antebraço.

(Reprodução / Internet)
Professor Pedro Mara (Reprodução / Internet)

O deputado considera a tatuagem uma forma de apologia à erva, e quase um atentado ao pudor, à moral e aos bons costumes. O professor se manifestou nas redes, e tem o apoio total da Macô.

Nem o MP-RJ, nem a Secretaria se posicionaram ainda sobre a questão. Mas este fato também reflete o que se passa no imaginário de milhares de brasileiros: o impacto que a imagem de uma folha de cannabis ainda pode provocar num contexto social, seja escolar, ou trabalhista, ou religioso.

Isso porque, sempre é importante lembrar, o álcool vendido livremente no país é  muito mais perigosos à saúde mental e física do que a cannabis, que ainda pode ser usada como medicamento para várias patologias. Se o professor tivesse uma caneca do Oktoberfest tatuada no pescoço, garanto que não haveria polêmica, muito menos preocupações parlamentares quanto a um profissional eleito pelos outros professores como diretor da instituição.

(Fica uma dúvida: será que o parlamentar também vai pedir o afastamento de todo o corpo docente que promoveu o debate na escola pública do Espírito Santo? Não me surpreenderia… )

As duas experiências descritas nos proporcionam refletir sobre o atual cenário da legalização no país. Ao mesmo tempo que nos surpreendemos, vemos que antigos tabus ainda lutam para se manterem erguidos. O importante é mantermos o tema sempre em pauta, com muitas discussões mesmo, a fim de buscarmos mudar a opinião pública com verdades, e não com folclores. O embate de ideias, principalmente nas escolas, é essencial para a desmistificação da cannabis. Colocar o assunto debaixo do tapete só garantirá nas escolas mais uma geração de ignorância sobre as drogas, o que só ancora ainda mais nosso país em tempos medievais. E, como disse o poeta, “navegar é preciso”.

* Dório Ewbank Victor é jornalista, escritor, ativista e editor da Macô. 

Um comentário em “Editorial #18: Maconha escolar

  • 19 de julho de 2017 em 19:48
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    Censurar o debate no âmbito acadêmico é, no mínimo, criminoso. Pior ainda perseguir alguém por suas convicções, principalmente os corajosos que as assumem na própria pele! A perseguição deste professor é ABSURDA! É preciso haver o aprofundamento e a disseminação do debate para se chutar a ignorância para longe.

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