Editorial #19: Na contenção do Nemer

Um dos principais ativistas do país sofre processo criminal por tráfico de drogas. Tudo isso por ter decidido cultivar sua própria erva como forma de coibir a hipocrisia no país.

Por Dório Ewbank Victor*

“Os verdadeiros sabem de onde eu vim / Reconhecem quando os versos são de coração (…) / Não sei fazer o som do momento / Eu faço do momento um som”. (Espírito Independente, MC Marechal)

Som são ondas de vibração. E algo só vibra quando é tocado repentinamente, deixando o objeto liberar seu ruído enquanto equaliza a vibração da matéria após um repentino impacto.

Logo, som é impacto.

E, se MC Marechal faz do momento um som, o advogado e ativista Ricardo Nemer sempre aproveitou o momento para impactar. Impactar para fazer som. Ou melhor barulho. Muito.

Nemer é impactante na vera. Você recua naturalmente ao primeiro contato. Verdades afiadas demais proferidas em poucos milésimos, em decibéis elevados e abençoados por abundantes perdigotos. Recua, na moral. Quando inspirado, não sobra para ninguém, tanto para proibicionistas quanto até mesmo para os ativistas.

“Porra, se o cara tá doente e a maconha ajuda ele, tem que esperar autorização? Tem que esperar a Justiça parar de ‘caçar borboleta’ pra começar a plantar? Inaceitável isso”, diria ele certamente em alguma vara cível da vida.

“Porra meu amigo, tu precisa do óleo mas não quer plantar, e agora tá reclamando de dor? Tem alguma coisa errada nisso. Vem cá, na moral, tu acha certo os outros plantarem pra você ter seu óleo? Isso é igual ver ‘o poste mijar no cachorro’, tá errado”, diria ele a qualquer paciente mal-acostumado com as benesses do ativismo.

Gosta muito de usar estas expressões non sense, mas que fazem muito sentido em determinados contextos. Já pensei em anotá-las – algumas adotei no meu vocabulário, como “esse jeitinho ‘poliana’ de fulano…”. O fato é que, indiscutivelmente, Ricardo Nemer é bem autêntico ao se pronunciar aos mais chegados. Aos mais distantes, prefere mesmo mostrar que domina o tema “Guerra às Drogas”, apontando falhas nas legislações, e mostrando caminhos jurídicos que propõem sempre a vanguarda. Mais que isso: a vida.

Afinal, Ricardo Nemer ficou reconhecido primeiramente como Brave Heart no fórum Growroom. E pergunta para as crianças das associações medicinais se ele não é realmente um coração valente?

Resumir as ações de Brave em inocentar growers e conseguir Habeas Corpus para pacientes plantarem seria algo muito simplista. Ricardo Nemer salvou famílias de verem pro resto da vida seus entes queridos sofrerem, seja no campo medicinal, seja no campo criminal. Nemer salvou, melhor, garantiu algumas dezenas de vidas por meio do seu ativismo.

Mas tudo isso é delírio. Enfim… Na verdade, o texto começa aqui. 

“E aquela Kosher hein?”, “Cara, preciso de ajuda naquele inventário, tá foda…”, “porra, tô em falta com a Abracannabis, vou aparecer lá”, seriam alguns dos prováveis papos que teria com ele até semana passada, quando soube que aquela ação policial realizada na residência dele, há alguns anos, se converteu em um processo criminal por tráfico de drogas. Na ocasião, algumas plantas apreendidas. Nenhuma arma. Nenhum bloco de notas. Nenhuma balança. Só plantas.

Eu não defendo vagabundo. E, devido ao fato notório de que Brave nunca traficou uma flor do seu quintal, eu e a Macô nos colocamos em sua defesa.

E garanto que tem mais gente nesta contenção.

Pergunta para Alexandre Meirelles, Cidinha Carvalho, e muitos outros pais e mães de pacientes que conseguiram autorização para plantar maconha em casa, algo inédito no país.

Pergunta pra geral do Growroom, Smoke Buddies, Maconha Brasil, se não estão na contenção do Nemer também.

Garanto que André Barros, Julita Lemgruber, Sergio Vidal, THC Procê e muitos outros ativistas renomados do país também estarão em sua defesa.

Abracannabis, Cultive, Abrace, Reforma e muitos outros coletivos canábicos já se posicionaram na contenção.

Os políticos Carlos Minc, Alexandre Molon, Jean Wyllys, Renato Cinco e muitos outros também estão do lado de Nemer.

Na moral, se contar a história dele pra qualquer um dos milhões de usuários no país, eles também estarão na contenção do Nemer.

Nemer faz do seu momento um som, e os verdadeiros ativistas também sabem de onde ele vem, de uma origem humilde no Jacarezinho (RJ), e, por isso, reconhecem naturalmente que teve que ter muito coração envolvido para conseguir se graduar em Direito e não esquecer de quem precisa: que somos nós mesmos.

Nemer não está sozinho. Nunca esteve e nunca estará. A contenção é grande, e barulho não vai faltar.

* Dório Ewbank Victor é jornalista, escritor, ativista e editor da Macô. 

Um comentário em “Editorial #19: Na contenção do Nemer

  • 6 de setembro de 2017 em 12:25
    Permalink

    🙁
    Que isso fera? Isso é sério?
    Eu acho qeu somente uma palabra define o que estão fazendo com ele: “COVARDIA”.
    Um sujeito guerrero e do bem passar por isto revela a covardia de quem está do outro lado. O lado que deveria aproveitar para efetivamente fazer justiça, está justamente promovendo a maior das injustiças.
    Desejo toda sorte do mundo para ele. Ativista de primeiríssima linha, qeu botas as caras em favor de quem precisa de verdade. É só dar um google no nome dele para ver quem é. O que ele faz, quem ele ajuda, etc, etc, etc e tal. O cara só faz o bem.
    [s] mega solidários!
    P.S.: Se tiver uma vaquinha online para pagar advogado para ele, posta aqui. Será um imenso prazer (mas que isso, um dever) poder retribuir uma ajuda, e será um dinheiro extremamente bem gasto de verdade.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *