Editorial #21: Larica derruba peteca do cultivo

Na terra da buchada e da feijoada, comer chocolate de larica pode tornar o país num manicômio presidiário gigantesco. Pelo menos, para o senador Sérgio Petecão.

Por Dório Ewbank Victor*

“Quantos ouvidos o homem deve possuir até que possa escutar o choro do povo?” 
(Bob Dylan, “Blowin’ in the wind”)

O senador Sérgio Petecão teve a chance de mostrar o seu lado progressista e desafiador no mês passado, durante a audiência pública que tratou da legalização do cultivo de maconha no país (SUG 25/2017). Mas não foi o que aconteceu. O parlamentar teve acesso como poucos à realidade dos pacientes que fazem uso terapêutico da cannabis. Ouviu bons depoimentos dos palestrantes, todos embasados cientificamente. Teve vídeo, teve Powerpoint à beça. No entanto, em seu relatório final, mostrou que ainda joga em um campo velho de ideias ao dar parecer negativo à esta questão. Mostrou que não concatena com as vanguardas científicas. Que prefere continuar a marginalizar os usuários, não importando quantas vidas foram e serão perdidas na continuação desta guerra idiota às drogas, especificamente, à maconha.

+ Editorial #16: uso social empacado

A propósito, quem se mostrou desafiadora foi a senadora Marta Suplicy (PMDB/SP), que pediu vistas da audiência.  Ao estilo “relaxe e goze”, ela tem chances de reverter o jogo. E, se reverter, a questão se torna projeto de lei, e seguiria o trâmite normal de analises e aprovações (Câmara, Senado, etc.). Mas voltemos ao Petecão.

Aliás, vamos falar sério? Petecão só se for com eleitorado dele. Para os defensores da legalização, virou Petequinha.

A questão da legalização precisa que ser tratada por políticos de peso. E, sinceramente, não tinha nenhuma expetativa com Petequinha. Ele já havia dado parecer negativo à realização da audiência pública, quando foi vencido pela maioria da Comissão de Direitos Humanos (CDH). “Não, tira esse abacaxi do meu colo”, deve ter pensado, bem diferente do restante da comissão, que votou e aprovou a audiência pública.

A audiência ocorreu com as outras já realizadas pela casa, com muitas inverdades por parte dos proibicionistas, e poucos ouvidos para os relatos dos ativistas e pacientes. Teve um pouco de polêmica, mas, cá entre nós, foi bem civilizada.

Ao término, até o mais sonso dos seres humanos poderia deduzir que Petequinha daria um parecer favorável, ao menos, à legalização do cultivo para todos os pacientes que utilizam a planta como remédio. Na verdade, foi uma artimanha de Petequinha para se esquivar de qualquer polêmica transmitida ao vivo. Em seu relatório final, negou o cultivo pra geral. O parecer se baseou nas inverdades proferidas pelos adversários da legalização. Todas as (in)justificativas já foram desmentidas pelas mídias em geral, como aumento da criminalidade, de “malucos no pedaço” em locais públicos, etc. Mas uma das inverdades, proferidas como o certo no relatório, surpreendeu a cena canábica. Segue ela abaixo:

“Ressalte-se ainda que, na audiência pública realizada na CE, o médico Ronaldo Laranjeira, professor da Universidade Federal de São Paulo(Unifesp), alertou para os graves danos sociais causado pela liberação da droga. Como exemplo, citou a experiência de legalização da maconha no estado de Denver, nos Estados Unidos, onde o uso crescente da maconha incentivou o consumo de produtos alimentícios considerados prejudiciais à saúde (chocolates, biscoitos, bebidas energéticas etc) e também de cigarros eletrônicos.”

Vocês têm noção disso? A larica se tornou, aos olhos dos proibicionistas, um grave dano social. Fodam-se as rajadas de fuzis nas favelas, fodam-se as cadeias superlotadas, fodam-se os pacientes que fazem óleo com prensado. Parem tudo: na terra da buchada e da feijoada, comer chocolate de larica pode tornar o país num manicômio presidiário.

E, assim, não vou entrar no mérito “mais do que questionável” da fonte do senador para escrever isso, Ronaldo Laranjeiras, praticamente o pai de todos os soldados da guerra às drogas no país (na verdade, briga pela paternidade com Osmar Terra).

Justificar a proibição da cannabis pela larica, fome provocada pelo consumo de canabinoides, é baixar muito o nível do debate da legalização no país. Ainda mais em um país onde a fome, não a provocada pela maconha, e sim pela falta de comida, ainda é realidade em várias regiões.

Mas esta justificativa mostra também que os adversários estão ficando sem argumentos. Estão perdidos entre as conspirações das bancadas conservadoras, não sabem mais o que fazem. A legalização tá batendo na porta com todos os avais possíveis da sociedade. Manter a proibição está cada vez mais difícil.

Se espremermos a audiência, conseguimos sim um resultado positivo. Porque, de todos os relatórios finais das audiências sobre cannabis realizadas nesta Casa, esta foi a mais questionada na sociedade, seja pelas mídias ou redes sociais. As justificativas de Petequinha não colaram. Aos poucos, os brasileiros em geral estão se conscientizando que a proibição existe não para proteger a sociedade, e sim porque tem muita gente faturando em cima disso.

Em tempo: mate a sua larica, da forma que você quiser. E continue na luta.

* Dório Ewbank Victor é jornalista, escritor, ativista e editor da Macô. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *