Editorial #22: Os “Golias” de Marta Suplicy

Talvez a senadora não tenha vislumbrado os obstáculos dentro e fora do seu partido ao vestir a camisa da cannabis medicinal. Mas pode ser oportunidade para reergue-se politicamente.

Por Dório Ewbank Victor*

Foi como um gol de virada aos 48 minutos do segundo tempo. A SUG 25/2017 estava pronta para ser engavetada pela Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal. Todo trâmite democrático havia sido cumprido. Opiniões favoráveis e contra o cultivo de cannabis, tanto social como medicinal, foram ouvidas de forma diplomática. O parecer negativo já havia sido redigido e apresentado a todos os membros da Comissão. Céu de brigadeiro, afirmariam alguns proibicionistas de plantão àquele momento. Até que a senadora Marta Suplicy (MDB-SP) pediu vistas, apresentou novo parecer, contemplando o cultivo medicinal, que, surpreendentemente, foi aprovado. Milhões de usuários no país comemoraram a decisão histórica daquele Senado. Marta também se tornou relatora do projeto.

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A senadora talvez não tivesse total ciência do peso da camisa que estava vestindo naquele momento. Uma bandeira que, no Brasil, pode trafegar entre lares burgueses até o olho do furacão de temidas comunidades, onde a maconha ilegal (prensado) é comercializada e estocada. Erva esta que, atualmente, é a única disponível para grande parte dos pacientes, e a menos indicada no uso terapêutico.

O projeto de lei agora tramitará por outras comissões do Senado, e também no Plenário, onde estará sujeito a emendas. Os pacientes agora contam com a articulação de Marta nesta Casa para garantirem seu direito à saúde. E não são poucos os usuários medicinais nesta expectativa. Chega à casa dos milhões, de pacientes, que também são eleitores.

Claro que a visão da senadora não pode ser eleitoral. 

Tudo bem, partindo do princípio de idoneidade, Marta precisa focar no bem-estar de todos os pacientes que fazem uso medicinal da cannabis. Mas, num viés político, esta bandeira social, do cultivo medicinal, pode incrementar a disposição da senadora em lutar pelos nossos direitos como cidadãos brasileiros.

Politicamente, Marta ainda se recupera do turbilhão político que ela mesma criou ao romper uma longa relação com o Partido dos Trabalhadores. Alegou à época algumas bandeiras oposicionistas, como ser contra a corrupção, a favor do impeachment, etc. Mas nos bastidores sabe-se que o desligamento teria sido provocado pela escolha de Fernando Haddad como candidato a reeleição na Prefeitura de São Paulo, e não ela, que também disputou a mesma eleição pela nova sigla, vencida por João Doria (PSDB).

Sem seus tradicionais aliados, sem bases na nova sigla, e ainda com o gosto da derrota nas urnas, a causa canábica também pode ser “medicinal” para Marta Suplicy neste contexto. Pode melhorar sua imagem pública, projetar a “modernidade de ideias” que Marta sempre valorizou ao longo de sua carreira política, seja na defesa das mulheres ou da liberdade sexual em geral.

Mas, nos campos de batalhas provocados pela Guerra às Drogas, Marta é apenas um Davi ante a muitos Golias. Será uma batalha longa, que, provavelmente não se finalizará este ano. Mas acredito que os reflexos positivos desta luta, se bem lutada, poderão ser vistos nas urnas em outubro – ainda sem confirmação, mas provavelmente ela vai tentar a reeleição.

O primeiro quebra-mola que a mãe do Supla encontrará será o primeiro derrotado no episódio deste projeto de lei, o senador Sérgio Petecão (PSD-AC), que relatou contra a sugestão antes desta se tornar projeto. Mas tem outros cachorros maiores, como Romário, Zezé Parrella (PDT-MG, o dos “400 quilos de cocaína), Romero Jucá (MDB-RR, do “grande esquema nacional”), o senador Magno Malta (PR-ES), por exemplo, criador da Frente Parlamentar Mista Contra Legalização das Drogas, que tem como membros, vejam só, nosso digníssimo (#sqn) ministro Osmar Terra, aquele que tem um projeto que prevê internação compulsória de usuários, entre outras barbáries.

Terra também é colega de partido de Marta. Aliás, este é outro campo de obstáculos que a senadora terá que enfrentar: o MDB, partido com alas extremo-conservadoras, que contam com nomes de peso no Executivo nacional, entre eles, nosso digníssimo (#sqn2) presidente Michel Temer. O Vampirão já se pronunciou contra a cannabis em vários momentos de seu curto mandato. Primeiro, se posicionou, por meio da Advocacia Geral da União (AGU), contra o uso medicinal. No final do ano passado, propôs, por meio do digníssimo (#sqn3) Osmar Terra, uma alteração na Lei de Drogas, na qual propõe abstinência e prisão aos usuários.

A pressão governamental dentro do Senado com certeza será coordenada pelo líder de governo na casa, Romero Jucá (o do “grande esquema…”, enfim), e pelos vice-líderes, entre eles, Sérgio Petecão. Pressão ao nível House of Cards (por favor senadora, não voe em jatinhos nos próximos meses).

Enfim, o projeto de lei ainda tem um longo caminho pela frente, e Marta terá que sambar muito para defender o cultivo medicinal sem se prejudicar dentro do partido, isto é fato. Em um ano eleitoral, qualquer polêmica pode resultar em rejeição. Pesquisas científicas que calcem justificativas para o cultivo medicinal, como também para o social, existem aos montes, só precisam ser “traduzidos “ politicamente. Talvez o desafio da senadora seja este, humanizar estes resultados científicos para o seu eleitorado.

* Dório Ewbank Victor é jornalista, escritor, ativista e editor da Macô. 

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