Maconha do Uruguai seria “suave” demais

Teor de THC não chega a 2%. Venda para uso social começa nesta quarta-feira nas farmácias uruguaias.

Aposto que muitos que vão ler esta reportagem vão logo dizer: “pô, quando dão a mão, querem logo o braço inteiro”. Mas não é bem por aí. Sim, o Uruguai merece trezentos bilhões de likes por ter legalizado a cannabis e estatizado sua produção e comercialização. Mas existe um fato, e este, irrefutável: a potência da maconha que começa nesta quarta (19/07) a ser comercializada nas farmácias está aquém das cultivadas nos clubes canábicos e também, infelizmente, da que é vendida pelo tráfico deste estado.

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A lei entrou em vigor no começo do mês, mas a comercialização mesmo começou nesta quarta. Vendida em sachês, e classificada em Alfa I e Beta I, a maconha comercializada precisa atender às restrições do Ministério da Saúde deste país, que prevê índices abaixo de 2% de tetraidrocanabinol (THC), e entre 6% e 7% de canabidiol (CBD). Só poderá ser vendida a usuários que se cadastraram – atualmente, cerca de 5 mil.

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Para se ter uma ideia, várias strains comercializadas, como Kosher Kush, GSC ou a clássica Moby Dick, tem mais de 20% de THC (reza a lenda que alguns fenos chegam a mais de 30%). Outras, como a Harle-Tsu, chegam a mais de 20% de CBD. E, desde que o autocultivo foi liberado, não é difícil encontrar estas strains à venda, seja por green guys, ou mesmo pelos vapores locais.

O baixo índice de THC levantou uma questão na sociedade uruguaia: se o comércio ilegal de lá dispõe de variedades que atendem mais ao usuário, por que este abandonaria o tráfico?

Quando você quer ganhar um mercado que você tem que levar em conta o consumidor (…) Para aqueles que estão acostumados a consumir variedades de 7 ou 10 por cento de THC, isso não satisfaz suas expectativas”, declarou a médica Raquel Peyraube, da Sociedade Uruguaia de Endocannabinología, em entrevista para a Infobae

Efeito psicótico

O tetraidrocanabinol ainda é assombrado pelo fantasma do surto psicótico. Ao contrário do CBD, que, a priori, não tem nenhuma contraindicação. Por isso, o Uruguai começou com baixos índices deste canabinoide. O mesmo ocorre na Suíça, que recentemente começou a comercializar cigarros de maconha com níveis parecidos de THC.

O engenheiro agrônomo Eduardo Blasina, fundador do Museo del Cannabis de Montevideo, defende o baixo teor de THC no início deste processo. “É muito favorável no início que a percentagem seja baixa de THC. Lembre-se de quem nunca fumou. Pessoas mais velhas, com dor ou no combate ao Parkinson. A experiência será bem-sucedida”, declarou ao InfoBae.

Já Samy Abud Yoshima, da Senses Biotech, acha que “dificilmente a produção será toda estabilizada em baixos níveis de THC devido à variabilidade genética de diferentes fenótipos da planta, entre outros fatores associados ao controle de qualidade de material biológico distribuído in natura ”, declarou à Macô.
“O governo, em tese, não pode vender maconha que tenha muito THC porque seria contraditório com outras diretrizes do MSP (Ministério de Saúde Pública). O Executivo do Uruguay ainda não tem convicção na eficácia medicinal do THC e superestima seus riscos e insegurança “, ressaltou.

Novas strains

O governo uruguaio pretende cultivar quatro novas genéticas no próximo ciclo de cultivo. A médio prazo, será comercializada uma maconha mais potente, sem ainda um teor específico de canabinoides revelado.

“As variedades que são oferecidas para venda são apenas o começo. O IRCCA é muito claro que, para deslocar o tráfico de drogas, a nossa cannabis tem de ser competitiva em qualidade, preço, acessibilidade e segurança para os usuários” declarou Milton Romani, secretário-geral do Conselho Nacional de Medicamentos durante o governo de José Mujica, para o Inbae. 

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